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Vol. 85. Núm. 2.
Páginas 244-253 (Março - Abril 2019)
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Vol. 85. Núm. 2.
Páginas 244-253 (Março - Abril 2019)
Artigo de revisão
DOI: 10.1016/j.bjorlp.2018.10.003
Open Access
Prevalence of hearing impairment and associated factors in school‐aged children and adolescents: a systematic review
Prevalência de deficiência auditiva e fatores associados em adolescentes e crianças em idade escolar: uma revisão sistemática
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Aryelly Dayane da Silva Nunesa,
Autor para correspondência
aryellydayane@gmail.com

Autor para correspondência.
, Carla Rodrigues de Lima Silvaa, Sheila Andreoli Balenb, Dyego Leandro Bezerra de Souzac, Isabelle Ribeiro Barbosad
a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Programa de Pós‐Graduação em Saúde Coletiva, Natal, RN, Brasil
b Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Departamento de Fonoaudiologia, Natal, RN, Brasil
c Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Departamento de Saúde Coletiva, Natal, RN, Brasil
d Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Faculdade de Ciências da Saúde de Trairi (Facisa), Santa Cruz, RN, Brasil
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Tabela 1. Estratégia de pesquisa para os bancos de dados selecionados
Tabela 2. Qualidade metodológica dos estudos incluídos, de acordo com a lista de verificação Strobe
Tabela 3. Características dos estudos incluídos, com qualidade metodológica avaliada de acordo com os critérios da lista de verificação Strobe
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Abstract
Introduction

Hearing impairment is one of the communication disorders of the 21st century, constituting a public health issue as it affects communication, academic success, and life quality of students. Most cases of hearing loss before 15 years of age are avoidable, and early detection can help prevent academic delays and minimize other consequences.

Objective

This study researched scientific literature for the prevalence of hearing impairment in school‐aged children and adolescents, with its associated factors. This was accomplished by asking the defining question: “What is the prevalence of hearing impairment and its associated factors in school‐aged children and adolescents?”

Methods

Research included the databases PubMed/MEDLINE, LILACS, Web of Science, Scopus and SciELO, and was carried out by two researchers, independently. The selected papers were analyzed on the basis of the checklist provided by the report Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology.

Results

From the 463 papers analyzed, 26 fulfilled the criteria and were included in the review presented herein. The detection methods, as well as prevalence and associated factors, varied across studies. The prevalence reported by the studies varied between 0.88% and 46.70%. Otologic and non‐otologic factors were associated with hearing impairment, such as middle ear and air passage infections, neo‐ and post‐natal icterus, accumulation of cerumen, family history, suspicion of parents, use of earphones, age and income.

Conclusion

There is heterogeneity regarding methodology, normality criteria, and prevalence and risk factors of studies about hearing loss in adolescents and school‐aged children. Nevertheless, the relevance of the subject and the necessity of early interventions are unanimous across studies.

Keywords:
Hearing loss
Child
Adolescent
Prevalence
Epidemiologic factors
Resumo
Introdução

A deficiência auditiva é um dos distúrbios de comunicação do século XXI, constitui um problema de saúde pública, pois afeta a comunicação, o sucesso acadêmico e a qualidade de vida dos estudantes. A maioria dos casos de perda auditiva antes dos 15 anos é evitável e a detecção precoce pode ajudar a evitar atrasos acadêmicos e minimizar outras consequências.

Objetivo

Este estudo investigou a literatura científica sobre a prevalência da deficiência auditiva em crianças e adolescentes em idade escolar, com seus fatores associados. Isso foi feito através da questão norteadora: “Qual a prevalência da deficiência auditiva e seus fatores associados em crianças e adolescentes em idade escolar?”

Método

A pesquisa compreendeu as bases de dados PubMed/MEDLINE, LILACS, Web of Science, Scopus e SciELO e foi feita de forma independente por dois pesquisadores. Os artigos selecionados foram analisados com base na lista de verificação fornecida pelo relatório Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology.

Resultados

Dos 463 artigos analisados, 26 preencheram os critérios e foram incluídos na revisão aqui apresentada. Os métodos de detecção, assim como a prevalência e os fatores associados, variaram entre os estudos. A prevalência relatada pelos estudos variou entre 0,88% e 46,70%. Fatores otológicos e não otológicos foram associados à deficiência auditiva, como infecções da orelha média e das vias aéreas, icterícia neonatal e pós‐natal, acúmulo de cerúmen, histórico familiar, suspeita dos pais, uso de fones de ouvido, idade e renda.

Conclusão

Há heterogeneidade quanto à metodologia, aos critérios de normalidade e, consequentemente, à prevalência e aos fatores associados nos estudos sobre da perda auditiva em adolescentes e crianças em idade escolar. No entanto, a relevância do assunto e a necessidade de intervenções precoces são unânimes entre os estudos.

Palavras‐chave:
Perda auditiva
Criança
Adolescente
Prevalência
Fatores epidemiológicos
Texto Completo
Introdução

No século XXI, os distúrbios da comunicação, que incluem a deficiência auditiva (DA), constituem uma grave preocupação na saúde pública; e sem tratamento têm efeitos negativos no bem‐estar econômico de uma sociedade na era da comunicação.1 O problema merece destaque, pois o sentido da audição é essencial para o desenvolvimento da fala, linguagem e aprendizagem2 e quanto maior o grau de deficiência auditiva, maiores são as dificuldades de perceber e distinguir a fala, inclusive déficits de linguagem.3

Em crianças com menos de 15 anos, 60% das perdas auditivas decorre de causas evitáveis4 e estimativas indicam que 1,1 bilhão de pessoas em todo o mundo podem estar sob risco de deficiência auditiva devido a práticas auditivas inseguras, como o uso de dispositivos de áudio individuais.5 Os adolescentes merecem atenção, pois estão expostos a altos níveis de intensidade de ruído não ocupacional.5,6 Alguns fatores associados à deficiência auditiva incluem infecções das vias aéreas superiores7 e da orelha média,8–10, além da presença de cerúmen que obstrui o meato acústico externo,9–11 já que podem interferir na transmissão do estímulo auditivo. No entanto, apesar do fato de as causas de DA poderem ser identificadas em crianças e adolescentes, os dados são limitados quanto a possíveis fatores de risco para DA adquirida.8

A detecção precoce da DA pode ajudar a prevenir atrasos acadêmicos,10 além de ser um determinante para a produtividade e a qualidade de vida do potencial portador de transtornos auditivos.12 Os exames audiológicos são indicados para a detecção precoce de distúrbios auditivos.7 Portanto, é evidente a necessidade de um conhecimento mais profundo sobre a prevalência e os fatores associados à deficiência auditiva em escolares. Ações de prevenção e intervenção poderiam então ser realizadas para minimizar as consequências negativas da DA na vida dos indivíduos. O objetivo deste estudo é fazer uma revisão sistemática da literatura científica sobre a prevalência da deficiência auditiva e seus fatores associados em escolares.

Método

Fez‐se uma revisão sistemática da literatura, norteada pela questão: “Qual a prevalência da deficiência auditiva e seus fatores associados em crianças e adolescentes em idade escolar?” As bases de dados consultadas foram PubMed/Medline, Lilacs, Web of Science, Scopus e SciELO. Os principais descritores relacionados ao tema investigado foram cruzados: prevalence, epidemiology, crosssectionalstudies, hearing, hearing loss, hearing disorders, school health services, school health, child e adolescent, como mostram as estratégias apresentadas na tabela 1.

Tabela 1.

Estratégia de pesquisa para os bancos de dados selecionados

Pubmed  (prevalence and epidemiology) E (cross‐sectional studies) E (hearing loss or hearing) E (child or adolescent) E (school health services or school health
Web of Science  TS=(prevalence) E TS=(hearing loss or hearing) E TS=(cross‐sectional studies) E TS=(child or adolescent)) 
Scopus  ALL (prevalence) E ALL (cross‐sectional studies) E ALL (hearing loss) OU (hearing disorders) E ALL (school health services) OU (school health) E ALL (child) OU (adolescent
Lilacs  Perda auditiva OU hearing loss [Words] E Prevalência OU Prevalence [Words] E Criança OU Niño OU child [Words] 
Scielo  (prevalence) E (hearing loss) OU (hearing) E (child) OU (adolescent

A revisão incluiu apenas os estudos transversais e que apresentavam a prevalência de deficiência auditiva em crianças e/ou adolescentes. Outros tipos de estudos ou formatos foram excluídos, bem como estudos transversais que incluíram crianças e/ou adolescentes mas não apresentaram uma prevalência específica para essa população. O levantamento dos dados bibliográficos ocorreu em 10 de abril de 2018, com base nos critérios de inclusão supracitados. A primeira fase da seleção de artigos foi a exclusão de estudos duplicados, seguida da leitura e análise de títulos e resumos de todos os trabalhos identificados. O passo seguinte foi a leitura completa dos estudos selecionados, o que levou à exclusão de trabalhos que não atenderam a proposta da revisão. As bibliografias dos artigos identificados foram analisadas para identificar possíveis estudos adicionais que pudessem ser adicionados à revisão aqui apresentada.

Os artigos selecionados foram submetidos à avaliação metodológica de acordo com a lista de verificação fornecida pelo relatório Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (Strobe)13 para estudos transversais, receberam o valor 1 quando o item foi contemplado, 0 quando não contemplado e 0,5 quando parcialmente contemplado. Todas as fases foram feitas pelos dois primeiros autores/pesquisadores, de maneira independente. Este estudo incluiu apenas os artigos que alcançaram pelo menos 60% do escore determinado pela lista de verificação Strobe, com um ponto de corte estabelecido para garantir boa qualidade metodológica. Artigos que não atingiram o limiar de corte foram excluídos. Todos os procedimentos da revisão aqui apresentados foram conduzidos de acordo com checklist PreferredReporting Items for Systematic Reviews and Meta‐Analyses (Prisma).

Resultados

Foram identificados 463 artigos, que abordaram a prevalência de deficiência auditiva em escolares e/ou adolescentes. Após todos os passos metodológicos, foram incluídos 26 artigos (fig. 1), com descrição da qualidade metodológica apresentada na tabela 2. Os artigos investigaram diferentes populações, grupos etários, critérios e métodos de diagnóstico de deficiência auditiva, mostrando a heterogeneidade dos resultados.

Figura 1.

Fluxograma de seleção de artigos.

(0,16MB).
Tabela 2.

Qualidade metodológica dos estudos incluídos, de acordo com a lista de verificação Strobe

Referência  TR  CJ  DE  VA  DM  TA  VQ  ME  DD  RP  OA  RP  Total 
Al‐Rowaily et al., 2012  0,5  0,5  0,5  0,5  17 
Al‐Khabori et al., 2004  0,5  0,5  0,5  0,5  0,5  14,5 
Balen et al., 2009  0,5  0,5  0,5  0,5  0,5  15,5 
Baraky et al., 2012  0,5  19,5 
Béria et al., 2007  0,5  20,5 
Bevilacqua et al., 2013  0,5  0,5  0,5  0,5  0,5  15,5 
Chen et al., 2011  0,5  0,5  0,5  0,5  0,5  0,5  17 
Czechowicz et al., 2010  0,5  0,5  0,5  17,5 
Feder et al., 2017  0,5  0,5  0,5  0,5  0,5  0,5  0,5  16,5 
Gierek et al., 2009  0,5  0,5  0,5  0,5  16 
Gondim et al., 2012  0,5  0,5  0,5  16,5 
Govender et al., 2015  0,5  0,5  0,5  0,5  16 
Hong et al., 2016  0,5  0,5  18 
Jun et al., 2015  0,5  0,5  0,5  18,5 
Kam et al., 2013  0,5  0,5  0,5  14,5 
le Clercq et al., 2017  0,5  19,5 
Niskar et al., 1998  0,5  0,5  0,5  0,5  0,5  17 
Ramma et al., 2016  21 
Samelli et al., 2011  0,5  0,5  0,5  0,5  18 
Serra et al., 2014  0,5  0,5  0,5  0,5  0,5  0,5  0,5  14,5 
Shargorodsky et al., 2010  0,5  0,5  17 
Skarzyński et al., 2016  0,5  0,5  0,5  0,5  0,5  13,5 
Taha et al., 2010  0,5  0,5  0,5  14,5 
Tarafder et al., 2015  0,5  0,5  0,5  18,5 
Wake et al., 2006  0,5  19,5 
Westerberg et al., 2005  0,5  0,5  0,5  17,5 

C, contexto; CJ, contexto/justificativa; D, desfechos; DD, dados descritivos; DE, desenho do estudo; DM, fonte de dados/medidas; F, financiamento; G, generalização; I, interpretação; L, limitações; ME, métodos estatísticos; O, objetivos; OA, outras análises; P, participantes; P, participantes; RP, resultados principais; RP, resultados principais; TA, tamanho do estudo; TR, título e resumo; V, viés; VA, variáveis; VQ, variáveis quantitativas.

Os estudos avaliaram diferentes faixas etárias e oito artigos incluíram grupos etários além de crianças e adolescentes.11,12,14–19 Houve variação nos métodos diagnósticos e critérios de normalidade entre os estudos selecionados. Alguns estudos usaram o limiar auditivo como procedimento de triagem,9,11,12,15,16,18–28 limiar auditivo automatizado,8,17,29,30 triagem audiométrica,14,31 e audiometria audiometria diagnóstica em alguma etapa.10,32,33 Em relação aos critérios de normalidade, houve diferenças mesmo entre os que usaram a mesma técnica, limiar auditivo ou triagem, e alguns estudos apresentaram um conjunto de procedimentos para indicar a normalidade do teste. Devido a essas diferenças, houve variação nos valores de prevalência encontrados. A maioria dos estudos não forneceu os respectivos intervalos de confiança (IC) (tabela 3) e alguns estudos analisaram a prevalência por meio de diferentes critérios e/ou avaliaram uma faixa etária mais ampla do que a que foi incluída nesta revisão, apresentaram o IC para alguns critérios.

Tabela 3.

Características dos estudos incluídos, com qualidade metodológica avaliada de acordo com os critérios da lista de verificação Strobe

Referência  Cidade/País  Amostra/População  Método diagnóstico  Critério
de normalidade 
Prevalência de DA  Fatores associados com DA 
Al‐Rowaily et al., 2012  King Abdulaziz Medical City, Arábia Saudita  2.574 (4‐8 anos)  Limiar auditivo em 1, 2 e 4kHza  20 dB  1,75% (1,25‐2,25)  Otite média, cerume, otite média crônica, perda auditiva neurossensorial, perfuração timpânicab 
Al‐Khabori et al., 2004  Omã  11.400 indivíduosc  Triagem em 1, 2 e 4 kHz  > 25 dB
Reteste imediato em 35 dB 
0‐9 anos, 16,7% (12,71‐20,76)  Cerume, presbiacusia, infecçõesb,d 
          10‐19 anos, 33,3% (27,63‐38,91)   
Balen et al., 2009  Itajaí, Brasil  419 (0‐14 anos)  4‐14 anos: Limiar auditivo em 1, 2 e 4 kHz, reflexos acústicos e timpanometria  > 15 dB para melhor orelha  16,84%  Fatores associados não incluídos no estudo 
Baraky et al., 2012  Juiz de Fora, Brasil  267 (4‐19 anos)  Otoscopia
Limiar auditivo em 1, 2 e 4 kHz
Questionário 
Perda auditiva incapacitante (OMS)  3,03% (8‐267)  Zumbido, > 60 anos, baixo nível de escolaridaded 
Béria et al., 2007  Canoas, Brasil  776 (4‐19 anos)  Limiar auditivo em 1, 2 e 4 kHz  Perda auditiva incapacitante (OMS)  4‐9 anos: 12%;
10‐19 anos: 7,1% 
Renda e nível de escolaridaded 
          Incapacitante:
4‐9 anos: 5,3%;
10‐19 anos: 2,2% 
 
Bevilacqua et al., 2013  Monte Negro, Brasil  577 indivíduosc  Otoscopia
Limiar auditivo em 1, 2 e 4 kHz 
0‐29 dB sem comprometimento; 30‐40 dB leve;
41‐60 dB moderada;
61‐80dB grave;
> 80dB profunda 
3,8% (2,17‐5,45) incapacitante  Fatores associados não incluídos no estudo 
Chen et al., 2011  Xi’na, China  1567 (12‐19 anos)  Otoscopia
Limiar auditivo 0,25 kHz a 8 kHz
Timpanometria 
Limiar auditivo (500‐4000 Hz) > 25 dB  3,32% doença otológica
(30‐1567) 
Gênero, uso de dispositivo audiológico portátil, drogas ototóxicas, histórico familiar de DA 
Czechowicz et al., 2010  Distrito de Lima, Peru  355 (6‐19 anos)  Otoscopia pneumática
Limiar auditivo em 0,25, 0,5, 1, 2, 4, 8 kHz
Timpanometria
Desempenho acadêmico e questionário aplicado por adultos responsáveis 
> 25 dB  6,9% (4,2%‐9,6%)  Renda, pobreza.
Icterícia neonatal, hospitalização, infecções recorrentes do ouvido médio, histórico familiar de DA com < 35 anos, anormalidade da membrana timpânica, cerume impactado, disfunção tubária 
Feder et al., 2017  Canada  1879 (6‐19 anos)  Limiar auditivo em 0,5 kHz a 8 kHz  > 20 dB  4,7%  Fatores associados não incluídos no estudo 
      EOAPD  > 26 dB e “passar” em três das quatro frequências de teste (2, 3, 4 e 5 kHz) com relação sinal/ruído
6 dB 
   
Gierek et al., 2009  Upper Silesia, Polônia  8.885 (6‐14 anos) 
Triagem a 1, 2 e 4 kHz
Fala no ruído Teste com figuras e teste com palavrasa 
25 dB NA  10,3% falharam  Disfunção tubária por infecção das vias aéreas superiores 
        90% correto;
75% correto 
6% confirmaram DA   
Gondim et al., 2012  Itajaí, Brasil  35 (4‐9 anos)  Questionário
Otoscopia
Limiar auditivo em 1, 2 e 4 kHz
Timpanometria
Reflexos acústicos 
Perda auditiva incapacitante (OMS)  2,86%  Presbiacusia, idiopatia, cerume, otite média crônica, otosclerose, perda auditiva induzida por ruído, labirintopatiab,d 
Govender et al., 2015  Durban, África do Sul  241 (estudantes de 1° ano)  Otoscopia
Timpanometria
Limiar auditivo em 0,5, 1, 2 e 4 kHz 
20 dB NA  24%  Os fatores estudados não apresentaram significância estatística 
Hong et al., 2016  Coreia  1.534 (13‐18 anos)  Limiar auditivo automatizado em 0,5kHz a 6 kHz  > 25 dB 0,5, 1, 2 e 3 kHz  2,2% (1,3‐3,7) unilateral  Idade, timpanometria, renda, uso de fones de ouvido com limiares > 20dB em frequências altas 
          0,4% (0,2‐0,9) bilateral   
Jun et al., 2015  Coreia do Sul  2.033 (12‐19 anos)  Limiar auditivo automatizado em 0,5 a 6 kHz  Frequência da fala na DA: limiares em 0,5, 1, 2, 3, 4 kHz ≥ 25 dBNA  Unilateral: 2,18% (±0,48)  Idade, sexo 
          Bilateral: 0,34% (±0,13)   
        Alta frequência em DA: limiares em 3, 4, 6 kHz ≥ 25 dBNA  Unilateral: 2,81% (±0,55)   
          Bilateral: 0,83% (±0,25)   
Kam et al., 2013  Shenzhen, China  325 (6‐10 anos)  Limiar auditivo automatizado em 1, 2 e 4 kHz  > 25 dB  4,92%  Fatores associados não incluídos no estudo 
le Clercq et al., 2017  Roterdã, Países Baixos  5.368 (9‐11 anos)  Limiar auditivo em 0,5kHz a 8 kHz
Timpanometria 
> 15 dB  17,50%  Otite média e baixos níveis de escolaridade materna 
Niskar et al., 1998  EUA  6.166 (6‐19 anos)  Limiar auditivo em 0,5 kHz a 8 kHz  > 15 dB  14,9%  Resfriado, sinusite, otalgia, tubos de ventilação, autorreferidos no dia da avaliação 
Ramma et al., 2016  Cidade do Cabo, África do Sul  1.000 (4‐19 anos)  Limiar auditivo em 0,25 kHz a 8 kHz  > 25 dB  4‐9 (4,3%); 10‐19 (2,6)  Sexo masculino, idade, hipertensão, histórico de trauma cranioencefálico e histórico familiar de DAb 
Samelli et al., 2011  Butantã, Brasil  214 (2‐10 anos)  Avaliação auditivaa  > 15 dB, timpanograma, presença de reflexos acústicos  46,7%  Fatores associados não incluídos no estudo. 
Serra et al., 2014  Córdoba, Argentina  172 (14‐15 anos)  Limiar auditivo em 0,25‐8 kHz; 8‐16 kHz EOAT  18 dB; Reprodutividade: > 70% SNR; > 6 dB em 3 frequências  34,88%  Fatores associados não incluídos no estudo 
Shargorodsky et al., 2010  USA  Ciclo 1988‐1994: 1.771 (12‐19 anos)  Limiar auditivo automatizado em 0,5‐8kHz.
Mudança de Limiar Induzida por Ruído 
Pior orelha: discreto entre 15‐25 dB NA, leve ou mais alto > 25 dB NA  Ciclo 1988‐1994: 14,9% (13,0‐16,9)  Raça / Etnia
Taxa de pobreza / renda
3+ infecções da orelha média 
    Ciclo 2005‐2006: 2.288 (12‐19 anos)      Ciclo 2005‐2006: 19,5% (15,2–23,8)   
Skarzyński et al., 2016  Tajikistan, Polônia  143 (7‐8 anos)  Limiar auditivo, questionários (pais e filhos)  25 dB  23,7%  Fatores associados não incluídos no estudo. 
Taha et al., 2010  Distrito Shebin El‐Kom, Egito  555 (6‐12 anos)  Triagem audiométrica, questionárioa  20 dB  20,9%  Suspeita dos pais, otite média, consumo de tabaco em casa, baixo nível socioeconômico e icterícia pós‐natal 
Tarafder et al., 2015  Bangladesh  899 (5‐14 anos)  Limiar auditivo em 0,5, 1, 2, 4 KHz; EOAT  30 dB  13%  Idade, carência socioeconômica, histórico familiar, cerume impactado, otite média crônica supurativa, otite média com efusão e otite externa 
Wake et al., 2006  Melbourne, Austrália  6.581 (≤ 7‐12 anos  Limiar auditivo em 0,5, 1 e 2 kHz ou 3, 4 e 6 kHz  > 40 dB
Melhor orelha 
0,88% (0,66‐1,15)  Memória fonológica de curto prazo pior 
Westerberg et al., 2005  Manicaland, Zimbábue  5.528 (4‐20 anos)  Triagem auditiva em 1, 2 e 4 kHz  > 30 dB  2,4% (2,0‐2,8)  Cerume impactado, infecçõesb 
a

Esse estudo inclui avaliação auditiva diagnóstica.

b

Esses estudos não incluíram análise de fatores associados, apenas análise das causas.

c

Esses estudos não incluíram faixas etárias específicas para crianças/adolescentes.

d

Esses estudos não incluíram análise específica de fatores associados para a faixa etária estudada, apenas para a população geral.

De maneira similar, o estudo dos fatores associados não foi homogêneo. Sete estudos não incluíram a análise dos fatores associados além da prevalência da deficiência auditiva16,22,24,26,27,29,33 e outros sete incluíram essa análise, embora não fosse específica para a faixa etária das crianças e/ou adolescentes.11,12,14,15,17–19 Devido ao baixo número de estudos que avaliaram fatores associados, as causas estabelecidas pelos estudos foram apontadas como fatores associados na tabela 3.

Discussão

Foram selecionados para a revisão sistemática 26 artigos, contudo houve variação significativa no método de identificação da deficiência auditiva, critérios de normalidade e grupos etários investigados, o que consequentemente levou à variabilidade na prevalência e seus fatores associados.

A menor prevalência encontrada foi de 0,88%21 e a mais alta foi de 46,7%.33 Enquanto alguns estudos incluíram a avaliação diagnóstica,7,10,32 outros consideraram a perda auditiva incapacitante.11,12,15,16,18 Alguns estudos aplicaram questionários,9,26,32,33 mas com objetivos diferentes. Questionários foram aplicados aos pais9,26,32 e aos indivíduos em idade escolar para investigar possíveis causas de alterações auditivas26 e fatores de risco para DA,32 como histórico de saúde,9 possível presença de zumbido e dificuldades de aprendizagem.26 No entanto, um dos estudos teve o objetivo de desenvolver um questionário como uma ferramenta de baixo custo para triagem auditiva.33

As prevalências encontradas nos estudos variaram de acordo com o método, a faixa etária e o critério de normalidade estabelecido pelos autores e a população em estudo; também houve variabilidade no estudo dos fatores de risco associados à DA. Considerando os estudos que enfocaram a avaliação de crianças e/ou adolescentes, e considerando a faixa etária “crianças” limitada aos 12 anos, verificou‐se que o mesmo número de estudos considerou crianças,21,25,26,28,29,32,33 e ambos os grupos etários (crianças e adolescentes),7,9,10,20,22,27,31 com pesquisa específica limitada nos adolescentes.8,23,24,30 Deve‐se destacar que as faixas etárias dentro dos grupos etários não foram as mesmas, nem os critérios de amostragem para cada estudo.

Alguns estudos avaliaram populações mistas de pré‐escolares e indivíduos em idade escolar10,12,15,19,22,31,33 e dentro desses estudos as causas mais comuns de deficiência auditiva foram cerume impactado10,31 e infecções31 como otite média.10,31 Nesses estudos, a prevalência variou entre 1,75%10 e 46,7%.33 Esses valores mais elevados podem ser explicados pelo critério diagnóstico usado, que, além da audiometria, também considerou o timpanograma tipo A e a presença de reflexos acústicos. Além disso, havia grupos de crianças com maior prevalência de alterações condutivas, como o diagnóstico de perda condutiva em 84,4%10 das crianças com DA. Entretanto, o estudo que comparou duas faixas etárias dentro da mesma população encontrou prevalências semelhantes: 1,3% para a faixa de quatro a nove anos e 1,4% para a faixa de 10 a 19 anos, a partir da análise da orelha melhor.16

O critério de normalidade empregado, o número de indivíduos em idade escolar incluídos e/ou a população selecionada podem ter causado tais discrepâncias, pois as principais causas de DA para indivíduos mais jovens são fatores relacionados à fatores condutivos – otite média com efusão (faixa de quatro a oito anos),10 otite média com efusão associada a disfunção da tuba auditiva e hiperplasia de adenoide (faixa de quatro a 10 anos).11 O estudo que encontrou a menor prevalência avaliou um grupo específico de escolares, com o objetivo de estabelecer a prevalência de DA naqueles que haviam feito a triagem auditiva neonatal. Por esse motivo, aqueles que não fizeram a triagem ou aqueles já diagnosticados com DA foram excluídos.23 Os estudos não apresentaram discussões profundas sobre a etiologia, possivelmente porque os resultados são oriundos de estudos de prevalência, e não de investigação diagnóstica. É importante estudar não apenas os fatores que levam à deficiência auditiva, mas também as causas genéticas.

Os fatores de risco para DA em crianças e adolescentes podem ser otológicos ou não otológicos.9 Os estudos consultados revelaram diferentes fatores associados à DA, como suspeita por parte dos pais,32 pior memória fonológica de curto prazo,21 uso de dispositivos eletrônicos pessoais,23 infecções de orelha média,8–11,18,31 infecções como sarampo, meningite, caxumba e rubéola materna,31 disfunção da tuba auditiva,7,9 cerume,9–11,14,18,20 anormalidades da membrana timpânica,9,10 icterícia neonatal9 e pós‐natal,32 convulsões e hospitalização.9 No dia da avaliação, também foram incluídos condições associadas autorrelatadas, como sinusite, resfriado, otalgia e presença de tubo de ventilação.20 Baixo nível socioeconômico,18,32 renda,8,9,15 nível de escolaridade12,15 e baixo nível de escolaridade materna28 foram associados à DA. As infecções não tratadas de orelha média, por acesso limitado aos cuidados pediátricos, constituem um importante fator de risco para DA.

Foi verificada uma variação na prevalência entre adolescentes, que dependeu do critério de normalidade usado, pois alguns estudos analisaram perda auditiva incapacitante,11,12,15,16,18 enquanto outros incluíram frequências acima de 4kHz no critério de audição normal,7–9,17,19,24,27,30 demonstrando a importância da avaliação de altas frequências nesse grupo. Os quatro estudos que focaram os adolescentes como principais sujeitos investigados foram feitos na última década e a prevalência encontrada variou entre 2,2%30 e 34,88%.24 A maior prevalência pode ser explicada pela inclusão de frequências acima de 8kHz e emissões otoacústicas evocadas. É possível que isso tenha ocorrido devido à exposição a ruídos por dispositivos pessoais,17,23 já que o uso de fones de ouvido do tipo earbuds e supra‐auriculares é comum, sem preocupações em relação aos níveis de intensidade ou duração da exposição.6

O uso de tecnologias de mídia deve ser destacado, assim como o hábito de ouvir música com fones de ouvido, o que ocorre progressivamente cada vez mais cedo na vida.34 Portanto, é comum estar exposto precocemente a altos níveis de ruído. Um estudo que envolveu escolares entre seis e 14 anos na Polônia investigou limiares reduzidos em altas frequências – 6 e 8kHz, alterados em 17,8% da amostra, a influência do ruído foi o fator mais provável para essa alteração.7 É importante mencionar que as classificações para perda auditiva geralmente não incluem altas frequências, como a classificação proposta pela OMS e empregada em alguns dos estudos incluídos.9,12,15 Algumas das triagens feitas não incluíram altas frequências e, portanto, podem não ter evidências do início da perda auditiva induzida por ruído, a qual certamente apresenta alta incidência nessa população específica, como revelado pelo aumento da prevalência de DA em adolescentes durante um intervalo de quase dez anos.8 Houve associação entre o uso de fones de ouvido e problemas acadêmicos,9 destacou‐se a importância das intervenções em saúde auditiva.

Em geral é difícil comparar as prevalências encontradas em diferentes estudos,19 como demonstrado nos resultados apresentados neste trabalho. Além da heterogeneidade dos métodos empregados para detectar e classificar a DA em crianças e adolescentes em idade escolar, o contexto de vida e a saúde dessa população são diversos, assim como as alterações auditivas experimentadas por crianças mais jovens e mais velhas.15 Esses fatores interferem na prevalência de DA, constituem a principal limitação do estudo aqui apresentado. Apesar da heterogeneidade de métodos, prevalência e seus fatores associados, a DA é um importante fator que compromete o desenvolvimento acadêmico e o desempenho de crianças e adolescentes.

Conclusão

Há heterogeneidade em relação à metodologia, critérios de normalidade e, consequentemente, quanto à prevalência e seus fatores associados. No entanto, a relevância do assunto e a necessidade de intervenções precoces são unânimes entre os estudos. Mais estudos são necessários, local e globalmente, para investigar a correlação entre os fatores associados e deficiência auditiva nessa população, para que intervenções e políticas públicas de saúde auditiva sejam progressivamente mais assertivas e direcionadas às novas necessidades desta geração.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Como citar este artigo: Nunes AD, Silva CR, Balen SA, Souza DL, Barbosa IR. Prevalence of hearing impairment and associated factors in school‐aged children and adolescents: a systematic review. Braz J Otorhinolaryngol. 2019;85:244–53.

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